O avanço do narcotráfico na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru deixou de ser apenas um problema relacionado às rotas internacionais de drogas. Nas comunidades indígenas da região, o tráfico também vem provocando uma grave crise social e de saúde pública, atingindo principalmente jovens.
Em comunidades como Nazareth, na Amazônia colombiana, indígenas Tikuna e Kokama convivem com o aumento do consumo de pasta-base de cocaína, maconha e outras substâncias. O problema se soma à falta de oportunidades de trabalho, lazer e atendimento especializado em saúde mental.
Segundo dados da Secretaria de Saúde do Departamento do Amazonas, na Colômbia, as tentativas de suicídio passaram de 63 casos em 2021 para 100 em 2024 e permaneceram nesse patamar em 2025. Em Nazareth, uma profissional de saúde relata 12 suicídios de jovens registrados na comunidade.
Jovens são atraídos para o circuito do tráfico
A expansão das plantações de coca no Peru também tem impacto direto sobre as comunidades brasileiras e colombianas. Jovens indígenas viajam para áreas de cultivo e laboratórios para trabalhar na colheita e no processamento da folha de coca.
Em alguns casos, o pagamento ocorre com pasta-base de cocaína, que pode ser consumida ou revendida posteriormente nas próprias comunidades. O resultado é a formação de um ciclo que envolve trabalho ilícito, dependência química, violência e exclusão social.
A comunidade de Bellavista, no Peru, é apontada como um dos principais polos de cultivo de coca da região. Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) mostram que a área cultivada passou de 307 hectares em 2020 para 786 hectares em 2024.
Crime organizado amplia influência na região
O cenário também é marcado pela presença de organizações criminosas. Segundo autoridades ouvidas na reportagem original, o Comando Vermelho possui atuação na produção e logística do tráfico na região, enquanto as rotas amazônicas conectam áreas produtoras a mercados consumidores.
Em Letícia, na Colômbia, o crescimento da população em situação de rua também chama atenção. Em dezembro de 2025, eram 224 pessoas nessa condição, sendo 35% indígenas, em sua maioria homens jovens.
A combinação entre pobreza, falta de oportunidades, recrutamento e consumo de drogas deixa comunidades inteiras expostas à influência das organizações criminosas.
Tratamento da dependência ainda é insuficiente
Para os jovens que conseguem buscar ajuda, as alternativas são limitadas. Centros de tratamento e instituições religiosas aparecem como algumas das poucas opções disponíveis na região.
A reportagem também reúne relatos de pacientes que denunciam maus-tratos e métodos considerados abusivos durante tratamentos contra a dependência. A instituição citada reconhece ter recebido reclamações e afirma que mudou sua metodologia, adotando atualmente uma abordagem biopsicossocial.
O próprio responsável pelo centro admite que o Amazonas ainda não possui modelos suficientes de atendimento para a população com dependência química.
Um problema que atravessa a fronteira
Na tríplice fronteira, o tráfico movimenta grandes quantias, mas a riqueza gerada pelo mercado ilegal não chega às comunidades que estão na base dessa cadeia. Pelo contrário: muitos indígenas acabam expostos ao recrutamento, ao consumo de drogas e à violência.
O problema também ultrapassa a questão da segurança pública. Trata-se de uma crise que envolve saúde, saúde mental, juventude, proteção das comunidades indígenas e desenvolvimento social.
Enquanto organizações criminosas ampliam suas atividades, lideranças indígenas, profissionais de saúde e famílias tentam impedir que os jovens sejam atraídos pelo tráfico.
Para romper esse ciclo, especialistas e representantes locais defendem respostas permanentes do poder público, com prevenção, atendimento à dependência química, proteção de crianças e adolescentes e políticas de redução de danos.
Na Amazônia, a disputa não envolve apenas as rotas internacionais do tráfico. Envolve também o futuro de comunidades que estão pagando um preço cada vez mais alto pela expansão da economia criminosa na região.
Fonte: Infoamazonia
Porto de Letícia, cidade colombiana vizinha a Tabatinga (AM). Foto: Bram Ebus/Amazon Underworld
Por Redação SIMCOM





